O DÓLAR VAI CONTINUAR SUBINDO?

Brasil, Curiosidades, Moedas

Com a escalada recente do Dólar todo mundo se faz essa pergunta…investidores, consumidores, cidadãos e interessados em geral se assustam pois a alta do dólar coloca em risco a viagem pra Disney, o Iphone novo, os joguinhos comprados pelos filhos no celular do pai, o azeite de oliva importado…and so on (a lista é interminável e como já comentei aqui vai até o bolinho de fubá que supostamente é uma coisa bem brasileira – Post: Até o bolinho de Fubá?).

Esse artigo não vai responder essa pergunta do título de forma estanque, ou seja, não sei dizer se o dólar vai estar R$ 3,50 ou R$ 4,50 ao final desse ano. Mas minha presunção aqui é deixar claro que em termos de fundamentos, persistindo o que vimos nos últimos 24 anos, o dólar vai, não só chegar, como se manter nos R$4,00 , R$4,50 ou ainda quem sabe R$4,70 cedo ou tarde.  Abaixo explico o porquê desses números. 

Mais do que várias razões e explicações conjunturais, o foco aqui numa teoria muito simples, que provadamente explica os movimentos de longo prazo das moedas: a teoria do Paridade do Poder Compra (PPP – Purchasing Power Parity). Em suma ela diz que produtos iguais devem custar a mesma coisa em diferentes países e que o valor numérico é uma simples conversão de taxa entre os países. Logo se um produto custa R$ 7,00 no Brasil ele deveria custar US$ 2,00 nos EUA considerando uma taxa de câmbio de R$ 3,50/dólar.

Mas o que faz os R$3,50 se tornarem R$3,00 ou R$4,00 com o passar do tempo? 

Essa reposta é simples dentro dessa teoria. A inflação! O país que apresente a maior taxa de inflação tende a perceber maior desvalorização de sua moeda. Logo a taxa de câmbio entre as moedas de 2 países é definida e guiada pela diferença de preços entre ambos os países. Somos famosos pela inflação alta e mesmo que esta tenha alcançado patamares absurdos no passado mais longínquo, ela ainda é bem maior que a inflação americana. O gráfico abaixo compara as inflações medidas pelo índices IPCA, IGP-M e CPI (índice de inflação ao consumidor americano). As diferenças entre os índices brasileiros se referem a forma de cálculo e foge ao escopo desse post.

Uma leitura simples desse gráfico: em 1994 um produto que custava R$ 100,00 e igualmente US$ 100,00 ; custa hoje US$ 169,30 nos EUA e R$ 578,80 se foi reajustado pelo IPCA ou R$ 727,80 se foi reajustado pelo IGP-M (como muitos aluguéis por exemplo). Sim tivemos uma inflação muito maior que os americanos nos últimos 24 anos….em média nossa inflação é cerca de 6% maior que a americana. Ou seja, supondo que a inflação americana seja 2% a nossa tenderia a ser 8% olhando os últimos 24 anos.

A teoria do PPP não deve ser usada para previsões de curto prazo, mas ela nos ajuda a ter uma visão de para onde a taxa de câmbio caminha. O gráfico abaixo ajuda a dar uma ideia de para onde o câmbio está indo. A linha vermelha seria a taxa de câmbio justa de acordo com a teoria PPP se calculássemos usando o IGP-M e a linha preta caso utilizássemos o IPCA. Entre elas, em verde, temos a taxa de câmbio que de fato ocorreu, ou seja, no mercado.

Mais do que um número a teoria nos provê uma tendência, ou seja, da apreciação. E por quê? Pelo simples fato de que nossa inflação é maior que a americana. Logo caso isso persista, tal qual persistiu nos últimos 24 anos, a tendência seguirá sendo de apreciação do dólar. Obviamente que no curto prazo temos outros fatores (especialmente de expectativas e fluxos financeiros). Ainda assim, o que quero salientar é que após as recentes altas muitos investidores começam a questionar a alta do dólar, mas sob a luz da teoria, o investidor deveria se perguntar quando a taxa cai, pois isso sim vai contra o fundamento!

Não sei o quanto o dólar estará em 4 anos na próxima Copá do Mundo…a de 2022… mas caso a história se repita e esse diferencial de inflação persista, teríamos uma taxa de câmbio de pelo menos uns R$ 4,70! 

Vocês estão preparados? 

Abaixo um infográfico que resume o que escrevi aqui.  Espero ter ajudado…abs.

13 comments

  • Muito bom Will, obrigado pelas ótimas análises de sempre.

    Pode me ajudar por favor?

    Eu comprei LOGN3 antes da subscrição por R$3,30. Pode me dizer qual o preço “corrigido” e como é a conta que eu devo fazer pra chegar no “novo” preço sempre que há uma subscrição?

  • Muito bom, as usual! Tenho por volta de 10% aplicado em fundos de dólar. Sempre acreditei que pudesse ser uma contra medida para quedas bruscas na bolsa. As vezes funciona…

    Aproveitando, estou pensando em aproveitar a queda de mercado e comprar mais BRSR6. Houve alguma mudança de fundamento ou realmente vale aproveitar a barganha? Hoje BRL 15,34. 🙂

    Outra coisa, o que você acha de Fras-le (FRAS3)? Tá barato!

    Obrigado e um abraço

  • Parabéns pelo artigo. Por favor, corrija um pequeno erro no texto e no infográfico: ‘está’, e não ‘esta’.

  • Parabéns pelo texto. Por favor, façam uma pequena correção no texto e no infográfico: ‘está’, e não esta.

  • Ótimo artigo, como sempre!

    Will, o que você acha de plataformas de equity crowdfunding? Essas plataformas permitem o investimento online em startups, e depois que CVM regulamentou esse mercado, está ficando cada vez mais popular.

    Além disso, o que você acha desse mercado? Já investiu em startups?

    Abraços!

    • Confesso que não tenho opinião sobre as plataformas de equity crowdfunding, mas a ideia me agrada…lá fora lembro que quando morei na Inglaterra isso já tinha e ganhava popularidade.

  • Fala Will.

    Seria interessante uma analise via fluxo de capitais. Analisar o efeito negativo das pesadíssimas taxas de importação sobre o dólar. E também as operações carry trade, assim como o superavit comercial.

    O superavit comercial so existe por conta dos pesadíssimos impostos de importação. Sao superavits “fake news”.

    • Sem dúvida as taxas de importação “ajudam a atrapalhar” digamos assim.
      Carry trade sempre existiu e a persistirem os sintomas, devem continuar…digo nossas inconsistências que cobram juro alto pra financiar nossa dívida.
      Sim, se reduzir as taxas quebra muita indústria aí.
      Complexo…mas quis chamar atenção ao fato de que o dólar está mais presente em nossa vida do que pensamos.

  • Outro comentário… Isso quer dizer que para o investidor estrangeiro não é estranha ele perder dinheiro no câmbio então?
    Talvez proteger do diferencial de inflação, mas não é algo tão bom para o gringo isso investir em ativos de risco nossos sem swap, o que acha?

    • Ele vem pra fazer o carry e faz o hedge.
      Quando o juros aqui estava 13% e la fora 1% tinha muita gordura…dava pra fazer hedge e sufar bem o carry…agora não rola mais.
      E o artigo é sobre tendência de longo prazo mesmo.

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