BARCLAYS OU LLOYDS – A ÁGUIA E O PURO SANGUE INGLESES

Lá Fora, Vídeos

Wanderlust. Palavra em inglês que não possui representante em português…tipo saudade só que as avessas. A melhor tradução é a da sede por viajar….algo que sinto constantemente.

Apesar de muitos associarem viagem única e exclusivamente com tempo livre, férias e o “desligar de tudo” confesso que não consigo! Me desperta a curiosidade ver os letreiros, outdoors, painéis e placas com os nomes de empresas…são histórias e um mundo que se abre a cada letreiro. E esses mundos novos que aprendi a desvendar enquanto investidor no Brasil se ampliaram sonoramente quando comecei a me tornar um investidor global…existe um universo lá fora que eu te convido a desvendar comigo!

 

Estou na Inglaterra.

A primeira coisa que lhe vem a cabeça deve ser a rainha (que Deus a salve), os castelos e o Big Ben. Pois bem ali entre o Big Ben e a Tower Bridge, não muito longe da residencia real, fica a chamada city londrina, o centro financeiro do Reino Unido e da Europa. Pra contextualizá-lo, tenha em mente que o Reino Unido (UK) é a 5ª maior economia do mundo e que o setor de serviços responde por 80% do PIB deles. Mais importante, o setor financeiro é o mais representativo da economia e sozinho responde por 6,5% do total da riqueza do país, tendo gerado ~R$ 600 bilhões em 2017 (~60% de todo o PIB brasileiro em um único setor que emprega 1,1 milhão de pessoas).

Um setor desse tamanho merece alguns posts, então resolvi começar por esses 2 gigantes que carregam uma entidade bem inglesa em cada um deles.

Texto completo abaixo e resumo aqui no vídeo do meu canal: 

BARCLAYS (BCS)

Ele existe desde que Elizabeth não era rainha e o príncipe Charles nem existia…foi criado pouco depois do futebol e antes das 2 grandes guerras mundiais em 1896 como resultado da fusão de outros bancos londrinos…(alguns sites atribuem a data de 1690 para sua fundação, mas oficialmente o banco adota 1896).

Basics. Barclays tem um valor de mercado de US$ 43,7 bilhões (~R$164 bilhões) e suas ADR’s são negociadas sob o código BCS nos EUA cotadas a US$10/ação.

O Barclays. Resumir um gigante desses é um desafio, mas vamos lá. Em suma eles atuam em 2 grandes divisões: Barclays UK e Barclays International. O braço do UK atende o varejo (aquele tradicional banco para pessoa física) e pequenas e médias empresas e responde por cerca de 30% dos resultados do banco assim como do capital alocado; e o Barclays International oferece produtos e serviços para grandes empresas e respondeu por 70% do lucro e ativos alocados, apresentando um retorno menor, mas com maior ganhos de escala.

Então já da para tirar duas conclusões: (i) o Barclays não é o banco de varejo inglês, não é essa sua essência atualmente; (ii)  a importância daquilo que acontece na terra da rainha hoje em dia é diminuta ainda que obviamente relevante.

“Velinho Bad boy”? Passados 10 anos da crise o banco e suas ações seguiram sofrendo no mercado … em 2017 contabilizaram perdas de 1.9 bilhões de liras (~R$ 5 bilhões) entre outras coisas pela venda de sua divisão africana e o reconhecimento das perdas por lá. Seu lucro por ação caiu em 3 dos últimos 5 anos. Abaixo gráfico do lucro de 12 meses comparado trimestre a trimestre, e sua variação trimestral abaixo nos últimos 5 anos.

Um dos grandes problemas deles tem sido as condenações e penas por má conduta nos negócios. Foi um período usado para aquilo que alguns analistas chamam de “limpar o balanço”. Reconhecer perdas, reconhecer que alguns créditos nunca voltarão, e reforçar a posição financeira do banco…torná-lo mais sólido.

Desempenho passado. Com lucros em queda a rentabilidade sobre o patrimônio também não foi lá essas coisas. Não por acaso as ações do banco tiveram fraca performance nos últimos anos (abaixo comparação com o S&P nos últimos 5 anos):

Dividendos. Os dividendos também não animaram com um yield médio de 2,6% nos últimos 5 anos, ante a outros bancos que pagaram até 6%. O banco optou por preservar capital e reforçar sua posição financeira antes de distribuir dividendos.

Mais stress a vista? No final de 2018 o Banco Central Inglês irá promover um novo teste de stress no qual ele testa a capacidade financeira dos bancos simulando cenários de forte queda dos preços dos imóveis, recessão global e forte elevação de taxa de juros para conter a inflação. No último realizado em 2017 o Barclays e o Royal Bank of Scotland foram os 2 que se mostraram em maior perigo em casos de stress econômico. São os fantasmas de 2008 ainda assustando os mais conservadores.

Bullish view? Interessante notar que os anos ruins do Barclays fizeram com que este negociasse a menos de 60% do valor de patrimônio (P/VPA = 0,55x) não seria uma barganha? Reforçando o “coro” dos potenciais compradores, temos:

  • o fato de que, aparentemente o ano de 2019 será livre do reconhecimentos de perdas dado que o balanço do banco já estaria “limpo”… com isso segundo estimativas de mercado os lucros poderiam chegar a $1,28/ação em 2019,  o que faria com que o banco negociasse a uma relação de Preço/Lucro de apenas 7,8x.
  • a possível elevação de  juros esperada para os próximos anos tende a ser benéfica para rentabilidade dos bancos.
  • ao fato de que os bancos tendem a ter uma melhor performance durante os últimas fases de expansão do ciclo econômico quando os consumidores estão mais confiantes e tomam mais empréstimos para comprar mais.

A ver…o fato é que passados 120 anos esse gigante busca se reinventar…ainda que seu símbolo seja uma águia, nos dias atuais o Barclays busca ser uma fênix para que seus investidores possam voltar a sorrir. 

 

LLOYDS BANK (LYG)

Ele foi criado no reinado do Rei George III, quando a principal discussão da época era a lei do Selo (Stamp Act) a qual exigia que todos os documentos em circulação na colônia americana deveriam receber selos provenientes da metrópole….estamos falando de EUA como colonia inglesa! Isso dá uma ideia de quanta história esse banco carrega (253 anos para ser mais exato).

Basics. Lloyds tem um valor de mercado de US$58 bilhões (~R$290 bilhões) e suas ADR’s são negociadas sob o código LYG nos EUA cotadas a US$3,24/ação.

O Lloyd’s o puro sangue. O Lloyds é o maior banco de varejo inglês operando sobre sua própria marca na Inglaterra e País de Gales, e usando as marcas Halifax na Irlanda do Norte e Bank of Scotland na Escócia. As principais atividades de negócios do Grupo são varejo, banco comercial e corporativo, seguro geral e seguro de vida, previdência e investimento as quais são divididas através de seus três segmentos de atuação: Varejo (que respondeu por 75% do lucro no 1S18), Banco Comercial (17% do lucro) e Seguros & Wealth Management (7% dos lucros). O banco se posiciona como bem focado no mercado do Reino Unido e em especial no varejo, tendo como carro chefe as mortgages (financiamento de residencias) que representam mais de 60% da carteira de crédito deles. Logo o Lloyds é um legítimo “puro sangue” do mercado inglês de varejo. Logo se você pensa em mortgage na Inglaterra , cartões de crédito, empréstimo para compra de um carro … essas coisas, o Lloyds é o cara que pega isso “na veia”.

Desempenho passado. Semelhantemente ao amigo inglês Barclays, as ações do Lloyds não tiveram uma performance muito exuberante nos últimos 5 anos vide gráfico abaixo que compara suas ações ao S&P.

Na verdade em geral os bancos e instituições financeiras europeias tem estado meio que em segundo plano nas preferências dos investidores. As ações  do Lloyds apenas replicaram esse movimento que foi muito pior em bancos italianos, gregos por exemplo.

Lucros estagnados, mas rentabilidade crescendo? Semelhantemente ao Barclays o Lloyds também encontrou dificuldades para incrementar lucros nos últimos anos.

Mas diferentemente do concorrente, a empresa conseguiu manter os lucros e incrementar a rentabilidade sobre o patrimônio líquido. Se você retornar ao gráfico acima onde comparo o desempenho da ação com o S&P vai ver que de 2016 para cá suas ações vem se recuperando. O ponto central até aqui tem sido a gradualidade na recuperação.

Um ROE de 7,2% parece pouco para uma realidade brasileira onde vemos um Itaú alcançar patamares superiores a 20%. Mas vale a lembrança de que aqui na Inglaterra as taxas de juros são significativamente menores.

Bullish view? Apesar dos pesares, alguns pontos positivos podem ser salientados para aqueles que pensam em comprar suas ações.

  • Banco digital. Outra vantagem do Lloyds é que ele tem estado a frente na questão da introdução do banco digital o que já traz resultados na menor relação custo/benefício entre os bancos de rua. Isso o ajudou a perceber melhora na margem de juros líquida (diferença entre o que o banco paga sobre os depósitos e o que recebe dos empréstimos).
  • Juros. A possível elevação de  juros esperada para os próximos anos tende a ser benéfica para rentabilidade dos bancos.
  • Dividendos. Como forma de recompensar seus acionistas o banco incrementou o pagamento de dividendos nos últimos anos e esses atingiram mais de 5% nos últimos 12 meses. Em fevereiro desse ano o banco elevou seus dividendos em 20% (montante pago por ação), o que sinaliza que a administração está confiante em relação ao futuro.
  • Valuation. Em termos de valuation o banco parece igualmente descontado. Negociando com desconto de 10% sobre o valor de patrimônio ante mais de 3x da indústria e com Preço/Lucro de 12x ante 18x da industria.

Suas ações me parecem uma opção mais conservadora e menos dependente de uma melhora substancial de economia. Com dividendos mais elevados o principal risco que vejo no curto prazo é sua maior exposição a empréstimos de maior risco como autos e cartões de crédito…os primeiros a darem dor de cabeça aos bancos em um cenário de crise. O puro sangue inglês tem conseguido avançar nos últimos anos, talvez não com o vigor de outrora, afinal já são mais de 250 anos em atividade, mas segue cavalgando. 

 

Já para quem olha o longo prazo de 5, 10 ou 15 anos vejo algumas preocupações com bancos em geral em especial os ingleses…

# 1 Setor disruptido

Quando a gente pensa num bancão desses em um país desenvolvido logo imagina num app que resolve toda nossa vida, uma plataforma nova e bonita com muita tecnologia envolvida. Na verdade não é bem assim. Ambos Barclays e Lloyds correm contra o tempo no sentido de conseguir se beneficiar e não perder o bonde da era digital. Ainda assim, tenho sérias dúvidas de como estará esse setor daqui 10 anos…penso que muito diferente porque grande parte das inovações que vejo são no sentido da desintermediação financeira…que é exatamente o business desses caras!

# 2 Brexit

Aqui não precisa explicar muito…apesar de nenhuma autoridade inglesa querer afetar o setor financeiro, o qual assume elevada importância em sua economia, a verdade é que haverão mudanças e que essa decisão (brexit) não facilita em nada a vida dos bancos por aqui.

# 3 Risco de crédito e imagem

Apesar de todos os controles o setor bancário possui os riscos na concessão de crédito vão sempre existir e a possibilidade de que a má condução de seus negócios afete sua imagem é algo inerente ao business. Cito isso porque a crise de 2008 mostrou isso quando chacoalhou a reputação de gigantes do mundo financeiro. Então é algo que deve ser sempre considerado, não importa o quão antigo seja o banco.

 

Era isso. 

Aquele abs. 

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