20200413 – Tônica da Semana: QUANDO A BOLSA IRÁ SE RECUPERAR DO CORONA? 

A Tônica, Tônica do Dia
Tempo de leitura: 11 min
Dobradinha?

Texto escrito por Eliseu Mânica e William Castro Alves

Vamos lá Srs e Sras, mais uma dobradinha do Bugg. Eliseu teve a ideia de escrever esse pretencioso texto sobre o imponderável,o tempo de recuperação do mercado…apesar de sabermos da nossa limitação em prever qualquer coisa, achei o desafio interessante e espero que o resultado seja satisfatório. Então vamos lá…

ready come on GIF

 

Crises anteriores e tempo de recuperação

Nessa ano de 2020 com a Crise do Coronavírus tivemos a queda mais rápida de nossa história. O tempo de transição do bull market para o bear market, foi de apenas 16 dias!! Essa é a queda mais rápida da história, como já mostrei em artigos anteriores. Por bear market, entende-se uma queda de 20% desde o pico atingido. Abaixo o tempo de queda no mercado acionário e o tempo necessário para recuperação do patamar anterior, pré-crise:

 

Diferentemente de outras crises, essa crise aconteceu muito rapidamente e deve também ter uma recuperação parecida com a velocidade da queda. Tivemos um choque na oferta e demanda, algo que pode ser restabelecido, já que os bancos centrais mundiais vêm dando estímulos de cerca de 10% do PIB e alguns trilhõesde dólares no mercado. Não só isso, os BC’s vem se esforçando para que o dinheiro chegue efetivamente para quem precisa, de uma maneira mais rápida, já que alguns bancos querendo ou não são mais seletivos, ainda mais em momentos de crise.

 

Você sabia? 

Deixe-me fazer um parenteses aqui… Não sabemos como nem quando teremos uma recuperação na economia e até mesmo na bolsa, mas olha que interessante …você sabia que da mínima de fechamento do S&P para o atual patamar o índice americano já subiu 24% ?!

 

 

E que o IBOV já teve alta de 22%?

 

 

Sim, nós não vamos nem devemos ter a pretensão de acertar mínimas do mercado…até porque elas ainda podem ser feitas (bate na madeira), mas é no mínimo curioso não? Lembro a você que aqui no Bugg, sempre chamamos atenção ao pensamento contrário e desvinculado de notícias na hora de se investir em ações. Escrevi no dia 16/03/2020 falando sobre a imunização racional e usando a música do nobre Tim Maia. Uma semana depois dia 23/03/2020 eu e Breno te entregamos um report completo chamando atenção para discrepâncias e assimetrias na bolsa.

Enfim, creio que o mercado deu a maior resposta e lição.

 

Vol alta é bom? 

Uma das lições talvez seja a de que uma volatilidade alta possa ser positiva para o investidor.

A queda recente, além rápida trouxe uma volatilidade em níveis muito altos. Em março de 2020 tivemos o mês mais volátil para vários índices mundiais, onde o VIX (Volatility Index)  atingiu mais de 80 pontos, um recorde! Quanto maior a volatilidade, maior é o risco? Sim, porém também melhor a oportunidade de comprar-se algo mais barato no mercado financeiro. Volatilidade alta significa na prática “sangue nas ruas”, “trovões” no mercado, economias caindo, pessoas instáveis emocionalmente e o mercado bipolar pendendo para o extremo pessimismo, ou seja, tudo o que é perfeito para quem quer aumentar os retornos no longo prazo, comprando ativos com uma margem de segurança maior (ativos que estão abaixo do patrimônio líquido e que tenham lucros ou outras métricas de margem de segurança).

Dá uma olhada no gráfico abaixo que compara os picos de volatilidade com o desempenho do S&P 500. As linhas vermelhas são apenas para ajudar a visulização

 

Mas e qual o tempo para recuperarmos dessa queda? 

Essa é uma pergunta simples, mas com 1 milhão de respostas e todas elas meras suposições.

Levando em conta pesquisas de vários jornais, alguns deles como o The Wall Street Journal, é possível dizer a recuperação de uma recessão (definida como 2 ou mais trimestres de um crescimento negativo do PIB) tende a se dar em média em 3 anos , já ajustados dividendos e inflação.

Mas isso é a recuperação da Economia, sabemos que no mercado de ações o timming é bem diferente. Como já frisamos acima, o IBOV e o S&P já tiveram uma boa recuperação desde as mínimas e o impacto econômico ainda não foi nem sentido em seu todo! Cabe salientar também que um bear market não é o mesmo que uma recessão. O gráfico abaixo mostra o desempenho do S&P desde 1926 e a duração de cada ciclo de alta e baixa. Difícil traçar uma média, meta ou paralelo….mas vale com informação:

 

 

Uma das principais falácias de mercado que ouvimos por aí a de que quando o PIB sobe a bolsa tenderia a subir! AInda que sim seja verdade que o crecimento econômico é algo favorável e importante para o ambiente de negócios, a verdade é que a bolsa antecipa movimentos. 

A tabela abaixo nos ajuda a ver o desempenho da bolsa pós recessão. Nos Estados Unidos , em momentos de crise, o PIB na média, teve uma queda histórica de -2,40% e o retorno do S&P500 teve retorno de 15,33% médio, já um ano após a queda do PIB; 45,84% após 3 anos e 120,33% após 5 anos, como podemos ver na tabela que segue:

 

Não temos o mesmo estudo para o Brasil, mas olha que interessante os resultados dessa tabela que mostra o tempo de recuperação dos últimos circuit breakers por ano…vale lembrar que somente em março foram 8 de um total de 24 ocorridos desde 1967, no Brasil:

 

Recessões e suas etapas

A última recessão que tivemos nos EUA foi a de 2008-2009. Ainda que motivos totalmente distintos, alguns esperam e estimam forte recessão na economia americana pelo impacto do corona. A última crise durou 17 meses. Não temos como saber exatamente quanto tempo essa irá durar, se vai ser menos ou mais rígida, qual o percentual de queda nos mercados de capitais, qual a taxa de desemprego, ou seja, tudo isso pode variar e ser diferente de crise para crise, porém uma coisa é certa: as crises têm um fim e elas passam!

Podemos dividir uma crise em 4 etapas principais: reconhecimento, pânico, estabilização e antecipação. Abaixo podemos ver essas etapas nas crises de 1987 e a de 2008:

 

 

fonte: Bloomberg

 

Vamos agora adentrar num campo especulativo aqui…ou do chute mesmo…

 

fail fun and games GIF

 

Acreditamos que já tivemos um momento de reconhecimento no mercado de ações, o qual começou em fevereiro. A parte do pânico sedeu em março onde tivemos o pior março da história, com queda de mais de 30% do IBOV em apenas 1 mês. E acreditamos que agora estamos em um momento de estabilização. Botando no gráfico:

 

 

Difícil aqui é dizer se já não entramos na fase de antecipação….diria que essa coincidiria com a estabilização de casos na Itália, Espanha e Eua principalmente, com o Brasil correndo por fora. Nesse sentido, olha que interessante os 2 gráficos que twittei ontem e que mostram exatamente essa estabilização:

 

O que fazer para evitar quedas fortes ANTES que crises ocorram?

Essa é uma outra pergunta simples de dificil resposta!

Investidores em sua maioria procuram por proteções em quedas, como seguros, compras de puts, vendas de índice ou de ativos específicos quase sempre nos piores momentos, no auge da crise! Muitos correram para o ouro por exemplo alí no auge da crise em março. E o fato é que essas “proteções” normalmente ficam muito caras quando o mercado cai. É aquela ideia de comprar guarda-chuva quando esta chovendo. Eu lembro no centro de Porto Alegre, os caras subiam uns 20%, 30% o preço quando estava chovendo…jogando com o desespero…rs. O mesmo acontece no mercado!

Rainy day , Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brazil | Cidades do ...

 

O ideal é você comprar uma proteção quando o mercado esteja em uma calmaria e que poucos esperam que ocorra algum stress de modo geral, nos investimentos. O problema aqui é que é muito difícil prever o timming exato para a compra dessas proteções! Seria o mesmo que comprar o guarda chuva num belo dia de sol e carregá-lo por vários dias na mochila…sem usar…só sendo peso mesmo! Muitos não gostam, mas é mais ou menos esse o conceito do hedge, em especial o feito com opções.

Uma outra forma é a diversificação! Diversificar carteira é uma forma de se proteger. Abaixo podemos ver os ativos que mais subiram e caíram ao longo de anos. Interessante que nenhuma classe de ativo foi, por dois anos seguidos, o de melhor retorno:

 

 

E olha que bacana… Se compararmos o retorno de 2 classes de ativos: renda fixa e as 500 maiores ações dos EUA. A figura abaixo mostra a sua evolução…mostrando o andar diferente entre esses ativos, enquanto muitas vezes um está caindo, o outro sobe, mostrando a importância da diversificação, protegendo de quedas e nos propiciando com um “tiro extra”, para aproveitarmos momentos como o atual:

 

Esse text foi escrito por William Castro Alves e Eliseu Mânica Junior. 

 

Era isso.
Aquele Abs.

Twitter: @willcastroalves
Instagram: @willcastroalves
Linkedin: William Castro Alves

16 comments

  • Will, mais um excelente texto, parabéns ao Eliseu também.
    Nos exemplos que você deu, a virada da fase de antecipação acontece sempre no fundo do mercado, não estamos lá. Na sua visão quais os fatores poderiam fazer isso acontecer no ambiente atual?
    Outro ponto, li alguns relatórios de fora que ainda desenham um potencial cenário pior, onde uma segunda onda de infecção vem forte com afastamentos social parcial ao longo de 2020 e retomada fica só pra 2021. Junto a isso, nossa bolsa abaixo dos 70k pontos precifica uma queda grande dos lucros, com empresas negociando abaixo de valor patrimonial. Nesse contexto, nesse pior cenário, como fazer para proteger a carteira?
    Abraço
    Ricardo Leão

    • Obrigado Ricardo, ficamos felizes pelo comentário!
      Achar um fundo é muito difícil, muitas vezes quem quer procurar fundo acaba perdendo a oportunidade de comprar ativos baratos. Já mostramos em alguns artigos que o ideal é sempre estar no mercado, com maior ou menor percentual em renda variável.
      Sobre proteção da carteira se faz antes de quedas, fica muito caro e arriscado proteger carteira quando existem ativos descontados, como você mesmo falou (abaixo do Valor Patrimonial). Seguro se faz em mercado que está subindo, quando é mais barato e quando poucos vêem. O que fazer sempre é diversificar, como disse.

      abraços, Eliseu

    • Obrigado pelo comentário Ricardo.
      Não protejo carteira, pois seguros custam $ no mercado. Melhor proteção para quem está pessimista é manter $ em caixa e correr o risco de oportuidade e destruição do poder de compra ao ter o dinheiro parado. Ah Dólar poderia ser uma saída.
      Discordo dos cenários mais dantescos…mas análise tem várias por aí.
      Como tu disse a bolsa brasileira precificou rápido muita coisa…tem q ter uma mar de news ruins para justificar cair mais, na minha humilde opinião.
      Sobre o que pode reverter….temos visto boas noticias do corona q tem empurrado o mercado pra cima.
      Acho q eh por ai
      abs

  • Olá Will e Eliseu, muito interessante a visão de vcs!

    Não sou “grafista” mas deu pra perceber nos gráficos, nas crises de 1987 e 2008 alguns picos de “alta” no meio do processo (vôos de galinha?) como acho que ocorreu semana passada aqui e nos EUA.

    E concordo com muita coisa que o colega Ricardo disse. Parece que uma nova onda de contaminações está surgindo no extremo oriente e a coisa se desenha pra longo prazo…

    E como serão as negociações/relações comerciais internacionais no pós-pandemia daqui pra frente???
    Além dos efeitos devastadores do baixo consumo, desempregos em massa, dívidas públicas e privadas aumentadas grandemente, demoras nas privatizações e reformas devido a travas e guerras políticas, orçamentos estourados, falta de perspectivas dos empreendedores/empresários… enfim.

    Mas para proteção acho q o ouro, dólar ainda tem bom potencial sim.
    Por isso tenho uns 20% de meus investimentos num fundo atrelado ao ouro e dólar.
    Abs.

    • Olá Will e Eliseu,
      Estava pensando na análise da tônica e cheguei aos mesmos questionamentos do Cícero, como colocar essas características, porque aqui é Brasil, e sabe como é o brasileiro principalmente os políticos, pensam apenas em si, e no cenário atual o presidente segue em voo solo na direção da volta às atividades gradativamente, para que se evite o caos econômico ( não sou a favor da volta ou isolamento total, apenas outro ponto a ser considerado, apenas penso como mais um ponto a ser vencido posteriormente, saca qdo o marido briga com a mulher e depois tem que agradar para se reconciliar, vejo isso aí no futuro das reformas a serem aprovadas) nas crises anteriores o estado estava tão ativo e assumindo todas as medidas de socorro à população, empresas, enfim o conta chega, quem paga?
      E outro ponto essa retomada se sustenta, na tese do mercado eficiente tudo está precificado, e os valores são justos, e vem outro ponto o mercado sempre olha o futuro, como o Will sempre diz também, esses desarranjos estão precificados na visão de vcs, o que sugere de novo normal do IBOV no fim de 2020/2021, de valor justo?

      Abs

      • Simei, obrigado pelo comentário! O Estado já está com pacote de cerca de R$ 1 trilhão, liberamos o compulsório, foram R$ 43 bilhões para a construção civil, uma dos setores que mais emprega, assim como o “Coronavoucher” e os R$ 600,00 para milhões de pessoas. TUdo o que falarmos aqui, de expectativas para o Ibovespa, não passa de uma futurologia e desculpa a palavra, uma perda de tempo. Acredito que o foco nosso deve ser em ativos que estão baratos perante a sua própria média, ir comprando aos poucos. Chutando, mas apenas um chute, acho que Ibovespa tem possibilidades de chegar perto dos 100 mil pontos até final de 2020, início de 2021, negociando a 10-11 vezes lucros forward.
        Abraços Eliseu

    • Obrigado pela leitura do artigo Cìcero, sempre presente com teus comentários aqui, fico feliz!
      Acredito que as relações comerciais serão de fechamento das empresas, dos relacionamentos entre pessoas com mais cautela, demoraremos a fazer turismo para uma Italia, por exemplo e sim, certamente o futuro vai mudar e demoraremos para continuar ao normal. Sobre a parte econômica governos mundiais colocando muita grana no mercado para ajustes, uns 10%-12% do PIB e isso tende a diminuir o efeito no longo prazo das quedas.
      Obrigado pelo comentário da tua carteira, importante sempre ter algo para proteção e aquilo que venho falado muito, diversificação é importante!

      Abraços, Eliseu

  • A solução mágica de ligar a impressora a cada crise, pintando papel e injetando na economia,como bėbado que combate a ressaca tomando uma, normalmente leva a mais dinheiro para quem já tem e bolhas de ativos por todos os lados.
    Muitos comparam a situação atual ao começo de Buffett, não é!
    Pensar em longo prazo quando os CEOs americanos gastaram 4.5 tri em buybacks, principal drive da alta depois de 2008, e estão de pires na mão novamente, é muito estranho, não acham?
    Empresas modernas têm controle pulverizado.
    CEO ganha por resultado de 12 meses. Está é a principal fonte de renda, não a saúde corporativa!
    A regra de dedo é tome o que puder em dívida, faça buybacks como se não houvesse amanhã, aumente o lucro por ação diminuindo o denominador e ganhe bilhōes em remuneração a cada ano.
    Quando der errado, e sempre dá, vá de calça nas mãos pedir algum aos contribuintes e recomece o ciclo.
    Os BCs e suas puts estão corrompendo o mundo corporativo dos too big to fail.
    A cada crise uma nova explosão das dívidas públicas e privadas (dos que podem) e massacre da classe média e das pequenas e médias empresas.
    É uma pirâmide movida a papel pintado.
    Quando a dívida assume proporções insustentáveis tem que ser aparada via inflação e/ou hair cut, e quem paga a conta são os poupadores e trabalhadores.
    Fiquem líquidos, só isso. Cash is King.

  • Bugg tem isso, sensatez e um pouco de positividade, muito bom isso! Sempre absorvo bem as coisas aqui. E digo que o papel do senhores ajudou e esta ajudando muito nesses tempos dificies, pq a carteiro foi só desmoronando rs

    Obrigado sempre Will and Eliseu.

Leave a Reply