IPO D1000 – VALE A PENA SER SÓCIO??

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Tempo de leitura: 20 min

Caros leitores, gostaríamos de apresentar nossa humilde opinião sobre a companhia D1000 que está realizando sua abertura de capital na B3. Suas ações estão previstas para começaram a negociar no dia 10 de agosto de 2020. Como forma de auxiliar no entendimento sobre a companhia, estamos distribuindo esse relatório, onde abordaremos sobre o segmento da empresa, seus principais pontos fortes e fracos, histórico de resultado e entender se faz sentido entrar no IPO.

 

SOBRE A D1000:

A d1000 é a nona maior rede de drogarias do Brasil no quesito faturamento. Pertencem ao mesmo grupo econômico da Profarma (PFRM3), a segunda maior distribuidora de produtos farmacêuticos e perfumaria do país, que possui suas ações ordinárias admitidas à negociação no segmento especial de governança corporativa da B3 denominado Novo Mercado, desde 2006.

São formados pelo conjunto das bandeiras Drogasmil, Farmalife, Drogarias Tamoio e Drogaria Rosário, sociedades que foram adquiridas pela D1000 entre 2013 e 2016. Desde 2013, implementaram um intenso modelo de reestruturação (turnaround) nas drogarias que eles operam e, com isso, conseguiram um considerável ganho de produtividade, o que pode ser verificado pela evolução do faturamento por loja que era de R$ 458,5 mil em 31 de dezembro de 2017 e passou para R$ 511,11 mil em 31 de março de 2019 (R$506,4 em 31 de dezembro de 2019 e R$ 501,4 mil em 31 de dezembro de 2018).

Operam por meio de suas 196 lojas físicas e centrais de atendimento telefônico (call center/delivery) nos estados do Rio de Janeiro, Goiás, Mato Grosso, Tocantins e no Distrito Federal. Em apenas sete anos de atividade no setor de varejo farmacêutico, conquistaram posição de liderança em nossas principais áreas de atuação, estando entre as top três drogarias, tanto no Distrito Federal como no Rio de Janeiro.

Contam com cerca de 3.600 colaboradores e atendem aproximadamente 2,5 milhões de consumidores/mês. Sua plataforma diversificada permite experimentar as particularidades e necessidades de todas as classes sociais da população brasileira (desde A+ a C), respeitando as características de cada região. Porém, o foco maior da companhia é em drogarias populares voltado para classe média para baixo.

Fonte: Prospecto Preliminar D1000

 

VANTAGENS DO CASE:

  • Modelo Misto (Varejo/Distribuição);
  • Baixa demanda por Capex em distribuição, já que ela vai ter 11 Centros a sua disposição (Centros das Profarma);
  • Incremento no poder de barganha frente a fornecedores, já que, juntos, Profarma e D1000 são o terceiro maior comprador do setor farmacêutico nacional;
  • Ciclo de Caixa menor que a média do setor (e isso é importantíssimo);
  • Modelo de loja popular, Drogarias Tamoio consolidou a companhia neste segmento em 2013, direcionado ao público de baixa renda, diferente dos outros concorrentes que focam nas classes médias/altas;
  • Plano de expansão muito forte para os próximos 5 anos. Como 30% dos recursos irão para aquisição ou abertura de novas lojas, a companhia pretende expandir suas marcas com foco no Rio de Janeiro e Distrito Federal;
  • Digitalização de Processos e melhoria na experiência dos seus clientes. Com a crise causada pela pandemia, a companhia se adiantou e intensificou os investimentos em tecnologia e soluções para se adaptar ao novo cenário. O uso dessas ferramentas tem permitido ela aumentar o ticket médio e a fidelização deles. Algumas lojas já incluem “self-checkout” e o aplicativo “Scan&Go”, onde o cliente não necessita passar por um balcão/caixa e pode utilizar o aplicativo para pagar.
  • Envelhecimento da população e aumento do topo da faixa etária do Brasil. Inclusive, no estado do Rio de Janeiro, onde a companhia é mais forte, a taxa de envelhecimento foi de 17% vs uma média nacional de aproximadamente 14% em 2019. Com uma população envelhecendo cada vez mais, isso fortalece o case da companhia, que está dentro de um serviço essencial para a população.

 

FATORES DE RISCO:

  • As atividades da companhia estão concentradas no mercado de varejo farmacêutico no Brasil, um setor altamente competitivo. Um aumento substancial da concorrência nos mercados em que eles operam poderá prejudicar sua participação de mercado e exercer pressão para redução dos preços, ocasionando a redução da margem de lucro. Atualmente a companhia tem como concorrentes o Grupo Pacheco (DPSP), Raia (Drogasil), Pague-Menos e Panvel, assim como vários outros varejistas regionais ou locais do setor.
  • Podem não ser capazes de implementar sua estratégia de crescimento orgânico. A falha em implementar a estratégia de crescimento orgânico poderá afetar negativamente os seus resultados. A companhia tem como plano estratégico continuar crescendo em cima de suas marcas e tentar dobrar suas lojas nos próximos 5 anos.
  • A extensão da pandemia do COVID-19, a percepção de seus efeitos, ou a forma pela qual tal pandemia impactará os negócios (quer do ponto de vista micro, quer do ponto de vista macroeconômico) depende de desenvolvimentos futuros, que são altamente incertos e imprevisíveis, podendo resultar em um efeito adverso relevante nos negócios da D1000. Como consequência disso, sua condição financeira, resultados das operações, fluxos de caixa e sua capacidade de continuar operando nos seus negócios podem ser impactados caso novas ondas do vírus apareçam.
  • A sua controladora, Profarma Distribuidora de Produtos Farmacêuticos S.A. (“Profarma”), distribuidora de medicamentos, cosméticos e outros produtos farmacêuticos foi responsável pela distribuição de cerca de 93% dos produtos adquiridos pela D1000. Não necessariamente é ruim depender da Profarma, visto que várias outras farmácias do setor também dependem (Profarma é a segunda maior distribuidora do país). Porém, vale ressaltar que, caso a parte de distribuição da Profarma comece a apresentar um resultado pior ou venha a ter dificuldades de distribuir medicamentos ou outros produtos, isto pode vim a impactar diretamente nos resultados da D1000.

 

CARACTERÍSTICAS DA OFERTA:

A oferta consistirá na distribuição primária de 23.536.205 ações (46,51% do free float total). Logo, trata-se de uma oferta primária, no qual, o dinheiro captado poderá ir para reforçar as operações da companhia, pagar dívidas ou investir em novos projetos.

Fonte: Prospecto Preliminar D1000

Faixa de Preço: A companhia estabeleceu o preço mínimo de R$ 17,00 e o máximo de R$ 20,32. Sendo a faixa média da oferta de R$ 18,66.

 

Ticker da Negociação: DMVF3.

 

Valores mínimos e máximos da reserva: O valor mínimo de investimento é de R$ 3.000,00 e o máximo é de R$ 1.000.000,00 por investidor não institucional.

 

Ações em free-float após a conclusão da oferta: 23.536.205 ações irão circular no mercado aberto, cerca de 46,51% de free float (se não houve lotes adicionais).

 

Destinação dos recursos: Com base no Preço por Ação de R$18,66, que é o ponto médio da Faixa Indicativa, a Companhia estima que os recursos líquidos provenientes da Oferta serão de aproximadamente: (i) R$404,9 mil, após a dedução das comissões e das despesas devidas pela Companhia no âmbito da Oferta, sem considerar a colocação integral das Ações Adicionais e das Ações Suplementes; e (ii) R$549,6 mil, após a dedução das comissões e das despesas devidas pela Companhia no âmbito da Oferta, considerando a colocação integral das Ações Adicionais e das Ações Suplementes. Para informações detalhadas acerca das comissões e das despesas da Oferta, veja a seção “Informações Sobre a Oferta – Custos de Distribuição”, na página 50 deste Prospecto. A Companhia pretende investir os recursos líquidos obtidos por meio da Oferta na/para: (i) amortização de sua dívida; (ii) abertura de novas lojas; e (iii) reforço de capital de giro.

Fonte: Prospecto Preliminar D1000

 

HISTÓRICO OPERACIONAL:

Vamos abordar um pouco sobre o histórico operacional da companhia, bem como, o plano estratégico dela para os próximos anos.

Fonte: Prospecto Preliminar D1000

 

Vamos lá. Eu sei que os números não parecem animadores, porém, lembrem-se que a companhia estava em turnaround. Depois de comprar a Rosário quebrada, a Profarma teve que ajustar várias lojas, decidiu por fechar algumas e teve que parar para arrumar a casa antes de mostrar ela para visitantes e dar continuidade com seu crescimento. Algo visto hoje em companhias como Via Varejo, que passam por uma arrumação de casa e começam a parecer melhores que no passado (e de fato estão melhores mesmo).

Sendo assim, olhando para 2017, 2018 e 2019, é possível ver uma evolução, uma melhora. O Lucro de 2017 para 2018 foi aquém do esperado, mas em 2019 já estava melhorando e quando olhando 2020, já teve crescimento (mesmo com essa crise toda causada pela pandemia).

A D1000 começou o ano muito bem, apresentando um crescimento de receita 3% maior que no 1T19 e entregando R$ 300,5 milhões em receita líquida. Vale ressaltar, que em meados de março, a OMS declarou a pandemia ao Covid-19. Logo, vários estados começaram a decretar o fechamento de vários estabelecimentos e pedir para que as pessoas se isolassem.

Shoppings foram fechados, assim, várias farmácias que se encontravam lá (por motivos de força maior) também foram fechadas. Profarma rapidamente se adaptou e remanejou funcionários dessas lojas fechadas para outras lojas. Além disso, começou a intensificar e acelerar seus investimentos com internet e começou a entregar via “delivery”.

No total foram 27 lojas fechadas (aproximadamente 14% das lojas totais). Todavia, a empresa fortaleceu as alternativas de delivery da divisão de varejo (d1000) e rapidamente passaram de 44 lojas para 72 (um crescimento de 63% nas lojas que entregam), ampliando consideravelmente a área de atendimento. Vale ressaltar, que em abril, esse canal de entregas respondeu por 12% do total de vendas do varejo, cerca de 4x maior quando comparado com o mesmo período anterior.

Além disso, enquanto algumas lojas estavam fechadas, a companhia não parou, mesmo com todas as adversidades de se trabalhar com o Covid-19. Sendo que 6 lojas de reformadas por conta de estarem fechadas em shoppings, 4 inaugurações, 2 ampliações. A companhia também já estava preparada para a “pré-alta” nos preços de medicamentos, com um estoque maior (inclusive o maior da sua história). Essa alta geralmente ocorre no final de março e início de abril, porém, foi suspensa por 60 dias pela Medida Provisória 933/2020.

Como vários itens de higienes e vitaminas, tiveram suas demandas aumentadas, a companhia conseguiu surfar muito bem toda essa alta (principalmente por ter o modelo misto).

Fonte: Release 1T20 Profarma

 

No geral, a D1000 continua atrás de vários pares do setor. Entretanto, com toda a restruturação que teve e com o plano estratégico agressivo, eu tenho confiança que a companhia pode chegar a margens próximas de seus pares. Melhorando margem e ganhando eficiência, fechando lojas deficitárias e melhorando a receita bruta por lojas por meio de reformas.

Esses frutos começam a ser visto quando olhamos de 2017 até hoje (2020), principalmente, os quatro últimos trimestres (que eu sugiro todos a darem uma olhada depois). Mas voltando para o plano estratégico…

A D1000 pretende alavancar suas vendas através do crescimento orgânico, com abertura de novas lojas e o aumento das vendas por lojas, ampliando sua cobertura geográfica e permitindo um aumento de market share (fatia de mercado).

Ampliação da área de venda das lojas, outro ponto chave. Em 31 de março de 2020, a companhia possuía 40 lojas com área menor do que 90 m². Dessa forma, pretendemos realizar a ampliação da área de vendas destas lojas com o intuito de aumentar o ticket médio e, por consequência, o nosso faturamento médio/loja. O histórico gerencial recente aponta que uma ampliação de 58% do tamanho de nossas lojas é capaz de provocar um aumento de 40% do total de suas vendas mensais a um custo aproximado de investimento de R$870 mil reais/loja. Fizeram isso nos últimos anos, reformas em aproximadamente 72% de nossas lojas.

Isso não quer dizer que está fora do radar possíveis M&A’s… Como a crise impactou vários concorrentes do setor, é possível que exista oportunidades na mesa para que ela possa aproveitar. Em 2013 foi fundamental a aquisição da Tamoio para consolidação do segmento de varejo como popular. Como já dito anteriormente, esse know-how em cima do modelo de farmácia popular, coloca ela na frente dos seus pares que ainda não entraram neste mercado. Panvel pretendia lançar seu modelo popular este ano e Raia ainda continua focando em classes mais altas (basta olhar que a maioria das lojas estão em lugares bons ou nobres).

Investir na expansão de nossas já reconhecidas marcas próprias. Em 31 de março de 2020, a D1000 ofertava uma variedade de aproximadamente 19.751 SKUs, dos quais 244 pertencem ao portfólio de marcas próprias ativas, quais sejam Nº21, GOnutri e Bem Básico, as quais foram lançadas a partir de 2014 e são vendidas exclusivamente em nossas bandeiras.

Em 31 de março de 2020, os produtos de marcas próprias representavam 6,2% do autosserviço (percentual sobre o mix de não medicamentos) da Rede, representando um valor de vendas em 2019 de R$33,0 milhões, apresentando, portanto, um crescimento de 36,0% quando comparado ao ano anterior. É possível que as receitas deste segmento cheguem em até 10% nos próximos 2-3 anos.

Para finalizar esta parte, melhorar a experiência de compra de nossos consumidores. A companhia já conta com CRM (Customer Relationship Management) e o apoio de uma consultoria para implementar o famoso multicanal (omnichannel) para os seus clientes. Além disso, pretende incrementar a experiência com planos de fidelidade em praticamente todas as marcas de farmácias (Bem mais Farmalife, Drogasmil Plus e Rosário Plus) baseado no histórico de compra de cada cliente.

Juntamente com esses dados, a companhia pretende consolidar seu e-commerce e aplicativo para compras via smartphones. Adicionalmente, está em fase de testes a implementação de facilidades para melhorar a forma de compra, com o “self-checkout”, no qual os clientes irão pagar suas compras sem a necessidade de um atendente ou caixa.

Agora abordando um pouco do endividamento da companhia. Existe um, porém, e inclusive, ele está citado na imagem abaixo. Muitas pessoas estavam se assustando com a relação dívida líquida/EBITDA da companhia. Mas vale ressaltar, que essa relação “grotesca” ficou prejudicada por conta da compra da Rede Rosário lá trás.

É válido comentar que essa compra foi uma das mais complicadas, tendo em vista que a empresa teve que fechar várias lojas que eram deficitárias e reformar algumas outras. Essa compra até rendeu renegociação de parcelas, como teve na última agora e foi favorável a companhia.

Logo, como a empresa tem como holding a Profarma e ainda assim, por ser um player relativamente grande, tem acesso a melhores condições de crédito ou de refinanciamento. Não vejo muita dificuldade da companhia de não honrar com suas obrigações.

Fonte: Prospecto Preliminar D1000

 

Para não tornar muito mais longo o meu raciocínio. Convido a todos que quiserem entender um pouco mais sobre os números da Profarma/D1000, acessar os dois links abaixo, no qual eu comento sobre o 4T19 e o 1T20:

Resultado Profarma (PFRM3) 4T19 – Uma dose de turnaround que tem dado certo

Resultado Profarma (PFRM3) 1T20 – O remédio para sua carteira

 

VALUATION

Chegamos a onde todos tem interesse. Para mim, Breno Bonani, como eu já estava no case de Profarma sob a tese da melhora da parte de varejo dela. Eu vejo sentido em entrar qualquer faixa. Mas isso jamais será uma recomendação e você que decida o que fazer (rs).

Mas vou apresentar o que eu achei e porque eu a acho atraente:

 

Notem que existe um desconto de 70-90% em relação a alguns múltiplos (esse desconto está sob a faixa média de cor azul). Acho um desconto muito grande para a companhia que vem apresentando melhoras operacionais a 4 trimestres.

Tudo bem, eu sei que muitos vão falar que a 7 anos eles não entregam resultado. Mas novamente, a companhia passou por uma arrumação de casa e parece que agora a mudança positiva chegou para ficar. Quem quiser viver no passado e não enxergar as melhorias que vem acontecendo, tudo bem, mas eu acho meio pirraça querer negar algo que os números têm provado (rs).

Eu concordo que ela deve negociar a um desconto, mas um desconto acima de 50% parece demais na minha opinião. Se a companhia realmente não estivesse entregando nos últimos 12 meses uma melhora, eu até concordaria.

Levar uma rede varejista de farmácias a 1x valor patrimonial, a quase 5x EV/EBITDA para 2021 com um plano estratégico agressivo e sensato, num setor que tende a se beneficiar do envelhecimento populacional em cima de um modelo misto (distribuição/varejo). Não me parece um negócio ruim, me parece um negócio sensato. Mas no fim do dia, cada um que aperte o botão por conta própria. Meu intuito era oferecer informação.

 

 

Era isso, valeu!

 

Breno Bonani.

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