Guerra Mundial: Será a hora de investir em Ouro ou Dólar?

Bolsas, Brasil, Lá Fora, Moedas
Tempo de leitura: 19 min

Em momentos de aversão ao risco, a fuga de capitais para ativos de menor risco é consenso entre os participantes do mercado financeiro. Em destaque, e moeda americana e a commodity ouro são ativos os que mais tendem a se valorizar nestes períodos, entretanto, a dúvida que muitos indagam é: Em qual deles devo investir?

Além disso, podemos também perguntar: Será que esses ativos possuem correlação? Eles apresentam a mesma variação em momentos de crise e depois dela? Se olharmos graficamente, nos últimos 20 anos, a resposta óbvia é não!

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Mesmo em uma janela temporal mais curta, 2 anos por exemplo, eles até apresentam certa correlação gráfico, porém apenas estudos empíricos conseguem comprovar a veracidade e o grau de correlação entre os dois ativos.

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Inicialmente, um evento exógeno como o ocorrido na semana passada não deveria ter consequências imediatas nas expectativas dos agentes econômicos para o mercado local e nem mudar a alocação de ativos das suas carteiras. Isso envolve a alocação de recursos em um destes produtos, mesmo após uma variação positiva inicial.

Porém, a incerteza global reduz o apetite dos investidores pela renda variável de maneira geral, mesmo que o IBOV rompera a marca de 118 mil pontos no inicio de 2020, e o medo dos agentes faz com que a busca por instrumentos de proteção aumente, dada a incerteza que o evento e as suas implicações futuras acarreta. O ataque dos EUA ao chefe da Guarda Revolucionária Iraniana Qassem Soleimani no inicio do ano não sou aumentou a tensão entre os dois países como também uma valorização dos ativos considerados seguros para os investidores.

Veja que a retorno do ouro OZ1D na B3 no dia 03 de janeiro de 2020 foi de 2,94%,

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Entretanto, será o melhor momento para investir na commodity? E qual será a correlação entre o ativo com a moeda americana (BR/US)? Qual deles devo comprar para investir?

Para responder estas questões, anos atrás realizei alguns estudos econométricos o qual pretende apresentá-los abaixo aliados as conclusões. Este será um resumo dos artigos que publiquei, atualizados para o contexto atual. Veja, os resultados são os mesmos, independente do momento econômico mundial.

Artigo completo:

https://contratofuturo.com/artigo/artigo-3-fatores-que-influenciam-o-investimento-em-ouro-no-brasil

Resumo

O presente estudo de econometria visa verificar quais as inter-relações do ouro no Brasil com diferentes benchmarks do mercado financeiros nacional e internacional. Utilizando modelos de séries temporais VAR, testes de causalidade e cointegração, buscou-se evidências empíricas do grau de relacionamento entre as proxys estudadas. Os resultados das regressões demonstraram que o modelo composto pela variáveis (ln) dólar americano e (ln) ouro Londres são significativamente importantes nos resultados do ouro brasileiro, entrando em consonância com a teoria econômica de convergência dos mercados. O teste de causalidade demonstrou que a variação dos ativos externos impactam significativamente no ouro local, porém a variação do ouro da BMF não impacta externamente, evidenciando que a série é unidirecional. Por fim, teste de Johansen de coitengração demonstrou que existe relação significativa entre as duas formas de investir no ouro, porém os resultados são pouco evidentes em relação a moeda americana neste e nos outros testes, o que implica na teoria econômica de fuga de capitais para ativos físicos, apenas em momentos de crise financeira, e não durante toda vida dos ativos.

Introdução

O objetivo deste estudo é descobrir se, no Brasil, o ouro possui alguma cointegração com o mercado nacional e internacional. Buscarei verificar empiricamente qual é a relação e o impacto que o metal em relação a diferentes proxys do mercado financeiro, sendo elas: dólar americano BR/US, índice Bovespa IBOV, CDI e ouro Londres.

O programa de econometria utilizado foi o STATA e o processo será descritos ao longo deste trabalho. A amostra dos dados utilizados encontra-se em nível, e o período é referente a grande parte da moeda brasileira vigente, o Real, de 1999 à 2015, dados coletados no site do BACEN.

Através da matriz de correlação dos ativos, pode-se avaliar inicialmente se as variáveis possuem alguma relação entre si, mesmo que de maneira superficial.

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O ouro apresenta correlação negativa com o CDI (-0,75) ao longo da série e também negativa com o dólar (-0,22), porém positiva com o ouro de Londres (0,96) e o índice Bovespa (0,79).

A teoria econômica de convergência dos mercados apresenta inicialmente uma divergência com os resultados prévios, dado que o Ouro Londres evidência sim correlação positiva com o ouro, porém o dólar não, pressupondo então que a moeda americana não afeta o metal amarelo local positivamente.

Um dos modos estudados em econometria para analisar qual é a o impacto das variáveis em um modelo é através do método de regressão linear simples. Apresentando a regressão dos indicadores, é possível verificar se existe relação significativa entre os retornos.

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Em relação aos resultados obtidos, a regressão sugere que:

* Ao nível de significância de 1%, a variação do ouro pode ser explicada por todos os ativos.

* O R² nos sugere que 0,9749 da variação do ouro é explicada pela regressão, dado elevado para o resultado.

Após a obtenção da regressão, foram realizados alguns testes, afim de verificar o problema de multicolineariedade e regressão espúria.

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Não possuir multicolinearidade é uma das premissas para estabelecer um modelo de regressão múltipla correto. Todos os indicadores com VIF acima de 10 apresentam informações onde as variáveis independentes possuem relações aproximadamente exatas. Na regressão anterior, apesar de alto valor encontrado paraIbovespa e ouro Londres, nenhum apresenta problema de multicolineariedade.

Visando verificar se a regressão obtida é espúria ou não é realizado o teste de DW:

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Na regressão espúria, um R2 mais elevado que a estatística Durbin-Watson sugere que a regressão dos dados não é satisfatória. No caso obtido, a estatística DW confirma que a regressão de múltiplas variáveis é espúria e não satisfatória para explicar a variação do ouro.

Para correção do erro e uma análise mais profunda nos resultados do ouro, irei aplicar outros testes mais concentrados nas duas proxys que apresentaram maiores resultados na estatística t, o ouro Londres e o dólar. Inicialmente irei acompanhar se existe alguma relação significativa entre o metal no Brasil e na Inglaterra:

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Gráfico:

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O gráfico evidência que os retornos do ouro Londres são próximos ao coeficiente angular do ouro Brasil. O teste de Breusch-Pagan, que verificação se há problema heteroscestidcidade das serieis, pode ser mensurado via teste de hipótese, onde:

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Verificando através do teste via Stata:

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O resultado, que rejeita H0, indica que não há problema heteroscedasticidade das séries e a variância dos resíduos é constante. Posteriormente, quando adicionado o dólar na regressão, conforme tabela abaixo, apesar de R-squared superior a regressão anterior, o novo teste apresenta problema de heteroscedasticidade. O contraponto é que o dólar parece não impactar homogeneamente na variação do ouro, mas possui significância nos seus resultados. Irei realizar maior verificação desta analogia nos testes de causalidade e bidirecionalidade.

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Onde:

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Regressão rejeita H0, aceitando a variância como heteroscedástica.

Após estudo das regressões de ativos, para uma análise mais aprofundada é aplicados os testes de cointegração em séries temporais, que possibilitam estudar e analisar relações estruturais entre as séries envolvidas. Mais precisamente, testes de cointegração permitem determinar se as séries temporais envolvidas possuem ou não uma relação a longo prazo.

Para iniciar a analise, é verificada a estacionariedade ou não das amostras (esta parte está mais completa no artigo original, não irei decorrer muito aqui, entretanto os resultados foram positivos para varições log-normal). Visto os resultados apresentados, pode-se aplicar diferentes testes, como causalidade de Engle-Granger, para variáveis não estacionarias, ou VAR, para variáveis estacionarias.

Um dos teste mais conhecido para detectar cointegração entre séries temporais é o teste de Engle-Granger, que segue basicamente a definição de cointegração direcional.

Após verificado a presença de raiz unitária nas séries temporais, precisa-se definir qual o tipo de regressão se adequa melhor aos nossos dados, no caso anterior o resultado foi comparar Ln de Ouro BMF e Londres:

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Após verificada se a regressão é espúria ou não via DW, é utilizado o teste de Cointegração de Engle-Granger:

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No caso encontrado, o estudo rejeita H0 do teste de hipótese, indicando que os ativos são cointegrados segundo método E-Granger. Dada que a estatística T é menor que 1% de valor crítico, os resultados indicam que os retornos possuem uma inter-relação significativa.

Apliquei o mesmo resultado para relação Ln de ouro e dólar, porém os resultados não foram os mesmos:

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O teste de proposto por Engle e Granger indica que o dólar americano e o ouro não são cointegrados, mesmo tendo correlação positiva em momentos de crise econômica. Por fim, o modelo conclui que o ouro brasileiro é cointegrado com o mercado internacional, mas o dólar não, o que não comprova que existe relação entre estes últimos.

Uma vez que as séries apresentam certo nível de cointegração, maior (Ouro Londres) ou menor (Dólar BR/US), vale testar a possibilidade de presença de precedência estatística unidirecional ou bidirecional entre as variáveis. Assim, pode ser aplicado o teste de causalidade no sentido de Granger entre as duas séries, e os resultados podem se observados na tabela abaixo:

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Conforme comentado anteriormente, VAR Granger também sugere que o ln do cambio impacta significativamente no ouro Brasileiro (rejeita H0), assim como o ouro Londres (rejeita H0). Já o ouro brasileiro não provoca nenhum choque estrutural nos dois ativos (aceita H0), o que indica que os choques endógenos são unidirecionais, sempre impactando no ouro local, mas o mesmo não impactando nos demais.

Utilizando uma outra abordagem, que permita analisar os efeitos de um choque estrutural de uma variável sobre os demais, a função impulso-resposta permite verificar a duração que leva para se propagar no tempo e a o efeito, positivo ou negativo sobre as variáveis. Este método é indicado porque o teste de causalidade de Granger indica apenas a direção da relação causal e o modelo de impulso-resposta decompõe as variâncias, visando demonstrar mais precisamente a proporção dos choques no tempo e na direção.

Gráfico função Impulso-Resposta impacto do ouro Londres sobre as demais proxys:

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Gráfico função Impulso-Resposta impacto do dólar sobre as demais proxys:

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A análise das funções de impulso-resposta, apresentadas na anterior, permite verificar que, a despeito da exogeneidade relativa do ouro, apenas efeitos unidirecionais de causalidade podem ser observados, sendo em primeiro lag já demonstrado resultado. Um choque (elevação) no preço do ouro no mercado Londrino provoca um aumento do ouro no Brasil, que se incorpora no longo prazo. Da mesma forma, um choque (elevação) do preço do dólar também resulta em aumento no preço do metal brasileiro. Esse choque se propaga sempre por 1 lag e tende a voltar a relação. Por fim, o ouro local não impacta nas variáveis internacionais.

Outro estudo de cointegração importante, uma adaptação do modelo VAR para longo prazo, foi proposto e é conhecido como modelo de correção de erros (VEC). Um modelo mais complexo, utiliza a representação em vetor auto-regressivo, proposto pro Johansen, e o testes que consistem em modelos de regressão, estudando uma combinação linear entre as séries temporais envolvidas.

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O teste de Johansen conclui que o ouro Londres e BMF são cointegrados em nível para longo prazo. Entretanto o mesmo teste não corrobora que existe correlação estatisticamente significativamente entre dólar americano BR/US e Ouro brasileiro.

Conclusão

O presente trabalho de econometria buscou avaliar as inter-relações do investimento em ouro n o Brasil com os principais benchmarks financeiro.

Inicialmente, o estudo encontrou como resultado o grau de correlação do ouro com demais proxys e os valores demonstram que é altamente correlacionado com o ouro Londres e negativamente correlacionado com o dólar.

O segundo teste foi gerada algumas regressões. Utilizando todas as variáveis no modelo, o grau de significância da regressão dos retornos é em 1%, porém os teste de Breuch-Pagan sugere que há problema de heterscedasticidade. O mesmo resultado é encontrado para regressão ouro BMF e dólar americano. O único teste homoscedástico foi da regressão do ouro Londres e Brasil, porém não foi rejeitada a hipótese nula no teste de regressão espúria.

Posteriormente é realizado teste de cointegração de Engle-Granger, onde o modelo conclui que o ouro brasileiro é cointegrado com o mercado internacional, mas o dólar não, o que não comprova que existe relação entre estes últimos. Os resultados do VAR resultou num modelo que o dólar americano e o ouro de Londres produzem choques estruturas na série de retornos do ouro BMF, univariadamente.

Por fim, a análise das funções de impulso-resposta, apresentadas na anterior, permite verificar que um choque (elevação) no preço do ouro no mercado Londrino provoca um aumento do ouro no Brasil em primeiro lag e que se incorpora no longo prazo. Da mesma forma, um choque (elevação) do preço do dólar também resulta em aumento no preço do metal brasileiro, em menor proporção e com oscilações negativas.

Já teste de Johansen conclui que sim, ouro Londres e BMF são cointegrados em nível para longo prazo, corroborando com a teoria econômica de convergência dos preços internacionais. Entretanto o mesmo teste não corrobora que existe correlação estatisticamente significamente entre dólar americano BR/US e Ouro brasileiro, demonstrando que os ativos não podem ser considerados igualitariamente para o investidor de longo prazo.

Meu insight sobre o assunto é que a ouro local demonstra ter a mesma variação que o dólar em momentos de aversão ao risco, entretanto, em momentos de bonança econômica o metal não cai da mesma forma que a moeda americana. Este fenômeno pode ser explicado tanto pelas finanças comportamentais (viés de que o investidor que possui ouro nunca querer se desfazer dele), seja pela liquidez maior do dólar, seja pelo metal ser tangível e possuir outras utilidades além da reserva de valor. De qualquer forma, o inconveniente é a sua estocagem e sua falta de liquidez, porém para o investidor que deseja possuir um ativo em carteira como proteção para longo prazo, o ouro demonstra ser um candidato melhor ao cargo.

Caso tenha lido até o final, agradeço e espero que tenha gostado do conteúdo!

E caso tenha alguma duvida ou queira analisar a tabela com os resultados, estou a disposição.

Um grande abraço,

– Guilherme Renato Rossler Zanin

Gestor de Recursos CVM – CGA e CNPI-T

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