O que o resultado dos bancões privados nos ensinou sobre expectativas.

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A temporada de resultados costuma iniciar lentamente. As primeiras semanas ainda não chegaram naquela velocidade que tira o sono (literalmente) dos analistas. No entanto, isso não quer dizer que não há emoção. Um exemplo foi a semana passada, em que tivemos a divulgação dos números dos grandes bancos privados brasileiros.

O Itaú divulgou após o fechamento do mercado, no dia 01 de fevereiro, e encerrou o dia seguinte com uma queda de 2,1%, enquanto o Ibovespa subia 0,6%. Santander trouxe seus números no dia 03 (antes da abertura), encerrando com queda de 0,4%, contra uma alta de 1,3% do mercado. Por fim, o Bradesco divulgou seu resultado (após o fechamento do mercado) no mesmo dia 03, finalizando o dia seguinte em alta de 3,0%, ante uma perda de 0,4% da bolsa.

Qual a percepção que temos quando vemos esse tipo de informação?

Possivelmente, de que Bradesco foi bom e Itaú e Santander foram ruins. Logo, devemos comprar Bradesco e vender os demais. Correto?

Não necessariamente.

A conclusão final até pode ser essa, mas o que quero dizer é que essas oscilações diárias estão refletindo um sentimento dos investidores com relação aos números divulgados. E isso não quer dizer que as empresas citadas se tornaram boas ou ruins.

Mesmo sem entender profundamente sobre avaliação de empresas, sem trabalhar no mercado financeiro, sem ter tido alguma experiência com projeções de resultados, é possível termos acesso aos relatórios que muitas corretoras disponibilizam. Nesses materiais conseguimos ter contato com a opinião de alguns profissionais e, talvez mais importante que isso, podemos acessar o que aquele profissional e o restante do mercado esperava em relação àqueles números.

O resultado divulgado nos mostra o que aconteceu. É uma informação que todos possuem, já está materializada. As projeções sinalizam o que pode vir. Se vemos mais potencial do que nossos pares, naturalmente estamos imaginando mais valorização.

“Ah, então a expectativa é mais importante que o número?”

Não e sim.

Se esperamos ganhar um relógio de aniversário e recebemos uma camisa, como ficamos? Agora, se esperamos ganhar uma meia e ganhamos uma camisa, qual a sensação?

Nas duas situações o presente foi o mesmo, mas imagino que a sensação seja totalmente diferente. (Se você não se identificou com os presentes utilizados, troque-os por algo mais ou menos, algo melhor e algo muito legal, vai ajudar no entendimento)

Com esse exemplo dos presentes, o que houve de diferente? Numa das situações as expectativas foram frustradas e na outra foram ultrapassadas.

Com as ações a lógica é a mesma. Se os resultados frustram as projeções, a ação cai. Se superam, sobe.

Itaú decepcionou. Santander veio quase em linha, mas frustrou um pouco. Já o Bradesco, opa, superou bem.

Analisando simplesmente essa informação, podemos imaginar que uma empresa que recorrentemente supera as expectativas, valoriza constantemente. Sim, mas não é só isso.

Por exemplo, uma empresa que está numa situação ruim, naturalmente carrega projeções fracas. Superar algo ruim é legal, mas não é necessariamente um feito a ser comemorado.

Por outro lado, se há a surpresa positiva agora e os resultados seguintes indicarem uma consistência de desempenho, aí temos algo interessante. Quando analisamos empresas, e não somente ações, o que a companhia está fazendo e o que ela ainda pode entregar possui muito valor

E nesse ponto voltamos aos nossos 3 bancos. Atribuir as variações das suas ações somente às expectativas foi raso da minha parte. Houve um outro aspecto muito interessante. Se por um lado Itaú sinalizou projeções modestas para 2021, o que decepcionou bastante a maioria dos investidores, tivemos também Santander com sinalizações arrojadas, mas dentro da estratégia que o banco já vem executando.

Já no outro lado vimos Bradesco com estimativas mais arrojadas, mas que parecem possíveis dado o histórico recente do banco. Esse ponto torna a coisa mais interessante dado que por muitos anos Itaú era visto como o banco ágil, arrojado, e Bradesco como o bancão engessado.

Assim, olhar também o que a empresa sinalizou, para onde ela direcionou as expectativas, é um aspecto muito importante.

No final da história os resultados divulgados que Bradesco está passando por um momento muito bom e que a estratégia está sendo acertada, que Santander segue com uma atuação arrojada e que Itaú está mais cauteloso.

Algum desses pontos mudou drasticamente a visão sobre essas empresas? Na minha visão, não. Certos movimentos já vinham sendo sinalizados. Onde devemos direcionar nossa atenção? Na carteira de crédito, inadimplência, eficiência operacional. As fintechs estão chegando e para se manterem rentáveis, os bancos tradicionais precisarão se movimentar rápido também.

Analisar empresas e investimentos de um modo geral não precisa ser atividade somente para profissionais. É claro que alguém que se dedica a isso o dia inteiro tende a apresentar resultados melhores, mas entender o que pode afetar o nosso dinheiro é sempre valioso.

Muitos outros bancos e empresas de outros segmentos ainda apresentarão seus números, focar naquilo que afeta o negócio e no que esperar, pode ter muito mais valor do que olhar simplesmente uma oscilação.

 

Um abraço.

Carlos Muller

Economista, analista de investimentos CNPI e consultor de investimentos habilitado pela CVM.
Experiência de 14 anos de mercado entre as áreas de sell side e buy side.
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