O que o Caso Petrobrás e o “Risco Brasília” podem ensinar ao investidor?

A Tônica, Tônica do Dia, Uncategorized
Tempo de leitura: 7 min

Poderia iniciar esse artigo dizendo que fui surpreendido com a decisão de nosso presidente com relação à troca de comando na Petrobras. Mas será que ainda devemos nos surpreender? A história nos diz que não, mas nós, investidores, insistimos em nos iludir.

Desde o final de 2015, após o início da execução da Operação Lava-Jato e o impeachment do governo Dilma, a Petrobrás passou por diversas reformulações, visando uma maior eficiência e transparência em sua operação. Além disso, algumas leis importantes foram aprovadas, desobrigando a empresa a fazer investimentos que, na maioria das vezes, tinham cunho político e não econômico.

Aliado a isso, a adoção de uma política de preços que acompanha o mercado internacional do petróleo ajudou muito a empresa a retomar um grande momento. Mas agora essa conquista, da empresa e seus acionistas, parece estar ameaçada.

Mas antes de falarmos sobre a Petrobrás, precisamos entender o contexto global em que ela e o Brasil estão inseridos.

 

MAIS UM CAVALO ENCILHADO: A RETOMADA DAS COMMODITIES

O Brasil é um país extremamente dependente da produção de commodities em sua matriz econômica.

Na tabela abaixo, podemos observar os principais países emergentes e o seu grau de correlação entre a variação de suas ações com a variação do preço das commodities. Nas duas últimas décadas o Brasil foi o país com maior grau de correlação, entre todos os países analisados.

Fonte: BTG Pactual

Falando sobre commodities, a análise do mercado como um todo é bastante clara. Com a aceleração das vacinas contra o coronavírus e uma gradual retomada econômica, estamos iniciando novamente um ciclo de escalada nos preços das commodities no contexto global.

Segundo um levantamento da gestora Crescat Capital, a relação entre as commodities e o preço das ações está em seu menor nível desde o início da década de 1970. Como possivelmente a retomada da demanda global será mais acelerada que a recomposição de oferta, um aumento nos preços das commodities é inevitável.

Bom, então se o mundo caminha para um novo superciclo nas commodities, estamos em uma posição extremamente favorável, certo? Não necessariamente.

A ENCRUZILHA DO GOVERNO: CAPITAL POLÍTICO OU ECONÔMICO?

Abraçando essa tese, precisamos lembrar que com o petróleo não poderia ser diferente. Depois de surpreender o mundo em 2020, quando no ápice da crise do covid chegou a atingir uma cotação negativa em seus contratos futuros, o preço do barril de petróleo vem se recuperando, quase atingindo preços pré-covid.

Mas se o petróleo ainda está abaixo dos preços de 2020, por que o preço dos combustíveis ao consumidor final estão bem mais elevados?

A resposta está na valorização do dólar. Como a cotação do barril de petróleo é negociada em dólares, novamente nossa moeda desvalorizada pesa em nosso bolso. Essa comparação de realidades pode ser visualmente verificada no gráfico abaixo, com os gráficos de Petróleo (Brent) x Cotação do Dólar frente ao Real (em laranja).

Pressionado pelo aumento dos preços nos combustíveis e uma aceleração na inflação, o governo Bolsonaro anunciou diversas medidas essa semana, dentre elas o fim do imposto federal sobre o Diesel e o gás de cozinha nos próximos 2 meses, o que irá gerar um rombo de quase 3 bilhões de reais aos cofres públicos. Acontece que Governo ainda não mostrou de onde vai repor essa desoneração.

Lembro a vocês que nunca estivemos tão endividados. Nossa relação dívida / PIB já está em 89,3%, um recorde que não deveríamos estar batendo.

Ou seja, o Governo está tentando resolver um problema de curto prazo, tomando uma medida popular e buscando acalmar os ânimos dos caminhoneiros (que já ensaiavam nova greve) mas está criando um problema de Longo Prazo, que é a deterioração ainda maior nas contas públicas e possivelmente das contas da própria Petrobrás.

Por fim, esse pacote de medidas bate de frente com a agenda liberal do Ministro da Economia, Paulo Guedes, o que pode desencadear também (mais uma) crise política. Sendo assim, prevejo mares agitados nas próximas semanas.

 

A LIÇÃO: FUJA DO RISCO BRASÍLIA

Muitos investidores (domésticos e globais) quiserem surfar a onda do novo ciclo de commodities através das ações da Petrobrás. O “pequeno” detalhe é que eles se esqueceram que, incluso nesse pacote, também vinha a exposição ao “Risco Brasília”. E esse sabemos que sempre é imprevisível.

Tenha em mente que sempre que investir em empresas que possuam qualquer tipo de ingerência política e governamental, estará também diretamente exposto a desdobramentos inerentes ao Risco Fiscal e Político de nosso país. Riscos esses que, na maioria das vezes, não compensa o retorno.

Te espero no próximo artigo!

 

Ademir Gutierri
Economista, Planejador Financeiro CFP® e Consultor de Investimentos habilitado pela CVM.
Há 13 anos e mais de 3200 pregões buscando a verdade dos mercados.

Instagram: @ademir.gutierri
Linkedin: Ademir Gutierri
Twitter:  @GutierriAdemir
ClubHouse: @ademir.gutierri

Disclaimer Os relatórios e/ou em qualquer conteúdo de análise e recomendação providos pelo Bugg possuem caráter meramente informativo e tem como objetivo fornecer informações que possam auxiliar o usuário a tomar sua própria decisão de investimento, não devendo ser considerado como uma oferta para compra ou venda de ativos. Os editores responsáveis pela elaboração deste relatório declaram, nos termos da Instrução CVM nº 598/18,que as recomendações do relatório refletem única e exclusivamente as suas opiniões pessoais e foram elaboradas de forma independente. Além disso, os instrumentos financeiros discutidos neste relatório podem não ser adequados para todos os investidores. Este relatório não leva em consideração os objetivos de investimento, a situação financeira ou as necessidades específicas de um determinado investidor. A decisão final em relação aos investimentos deve ser tomada por cada investidor, levando em consideração os vários riscos, tarifas e comissões.

One thought on “O que o Caso Petrobrás e o “Risco Brasília” podem ensinar ao investidor?

Leave a Reply