Uma frustração chamada governança corporativa

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Confesso que escrever um texto sobre governança corporativa envolve uma certa quebra de paradigmas para mim. Analisar o comportamento e enquadramento das empresas dentro de critérios ambientais, de sustentabilidade e governança (ASG) sempre foi um dos aspectos do meu processo de trabalho.

Então em qual momento isso se torna um “desafio” para mim?

Explico.

Apesar de considerar a importância dos aspectos ASG, eles nunca foram mais do que complementares nas minhas avaliações. Digamos que a leitura era muito mais sob uma ótica de corroboração ou avaliação relativa de uma tese.

Para mim, o resultado apresentado, múltiplos, potencial de crescimento, vantagens comparativas, esses sim eram o meu foco principal. Via relatórios de empresas e apresentações sobre ASG muito mais como uma estratégia de marketing do que uma agenda a ser seguida.

E, nesse aspecto, para muitos e muitos casos, não estava errado. O que reforçava essa minha ideia inicial.

Qual o problema disso? Quando fechamos os olhos ou menosprezamos alguns pontos, podemos colocar em risco aqueles outros critérios técnicos mencionados anteriormente. Aí entra a minha motivação para esse texto.

Na última quinta-feira (18/02/21) o presidente Bolsonaro deu declarações questionando a gestão da Petrobras, dando a entender que iria influenciar em algumas políticas da companhia. Na sexta-feira, a ação encerrou o dia com queda de 6,6% e a noite com a indicação de um novo diretor presidente.

Não me considero traído pela empresa, pois naturalmente coloco um desconto sobre empresas estatais. Não só eu, o mercado como um todo.

Então relacionando com o meu texto anterior sobre expectativas, o Governo e, consequentemente, a empresa, frustraram projeções do mercado sobre uma evolução que a companhia poderia apresentar. Quando decepciona, o que acontece? Cai.

Parte do discurso adotado ao longo dos dois últimos anos estava relacionado à não ingerência do Governo sobre as empresas públicas. Como é algo que todos investidores querem, fica mais fácil de comprar a ideia. Aceitando a diminuição da influência do gestor público sobre uma companhia de capital misto, conseguimos projetar ganhos de longo prazo nos resultados da Petrobras, nesse exemplo.

Quando o presidente Bolsonaro coloca em xeque a diretoria técnica da empresa, aquelas dúvidas ligadas às gestões anteriores, voltam à tona. Petrobras perdeu todas as expectativas positivas? Não. Aquele cenário de queima de caixa irá voltar? Espero que não. O que mudou? O aumento do risco estatal sobre a empresa. E isso não pode ser ignorado.

Um processo de análise bem feito leva em conta buscarmos um conhecimento aprofundado sobre as empresas. Indicadores prontos, avaliações rasas, podem nos trazer surpresas desagradáveis. O meu trabalho foi realizado. Analiso Petrobras há 13 anos e, ainda assim, não escondo minha frustração com os acontecimentos.

Para finalizar, e justificar parte da minha descrença com relação a alguns critérios de governança, a bolsa possui um índice que busca apresentar o desempenho das empresas presentes no Novo Mercado, ou nos Níveis 1 ou 2 da B3. Esse indicador se chama Índice de Governança Corporativa (IGC).

E sabe quem é a empresa com maior participação (entre ações ON e PN) no IGC? Pois é, a nossa amada Petrobras, com participação de 7,73%. Aqui não quero menosprezar critérios de governança. Acredito que, levados a sério, eles podem e trazem uma evolução enorme para o nosso mercado. A questão é que um selo de governança diferenciada não é garantia de que essa empresa possui um comportamento superior.

Estudar muito, questionar e não aceitar cegamente esse discurso “bonitinho” de comprometimento com o mercado pode nos evitar muita dor de cabeça.

 

Um abraço,

Carlos Müller

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